“Uma guerra sem fim”, por Ursula K. le Guin

Este texto (cujo título original é “A War Without End”) é originalmente um ensaio escrito pela Ursula K. Le Guin para a edição de “Utopia”, de Thomas More, publicada pela Verso Books. Foi republicado pela Jacobin quando a mesma faleceu, e foi então que tive contato com este texto. Alguns comentários/notas estão após o final do texto. As notas que inseri dentro do texto estão entre colchetes.

Resumidamente, é um ensaio que toca nos problemas das formas como em geral são encaradas a opressão e a resistência e oferece algumas reflexões sobre o papel da ficção fantástica em combater a postura de que as coisas como são “sempre foram assim, sempre serão assim, e é assim que elas devem ser.”

O texto pode ser acessado na versão original em inglês aqui, pela Jacobin, e aqui, no site da Verso Books.

Agora, ao texto c:


“Uma guerra sem fim” – Ursula K. Le Guin

Algumas reflexões, anotadas de quando a quando, sobre opressão, revolução e imaginação.

 

Escravidão

Meu país se formou a partir de uma revolução e foi quase despedaçado por outra.

A primeira revolução foi um protesto contra espoliações sociais e econômicas que eram, apesar de relativamente brandas, estúpidas e irritantes. Foi bem-sucedida de maneira quase ímpar.

Muitos daqueles que fizeram esta primeira revolução praticavam a forma mais extrema de espoliação econômica e opressão social: a posse de escravos.

A segunda revolução americana, a Guerra de Secessão [ou “Guerra Civil Americana”, de 1861-1865], foi uma tentativa de preservar a escravidão. Foi parcialmente bem-sucedida. A instituição foi abolida, mas a mentalidade do senhor e a mentalidade do escravo ainda geram boa parte dos pensamentos da América.

 

Resistência à Opressão

Phillis Wheatley, poetisa e escrava alforriada, escreveu em 1774: “No seio de cada Humano, Deus implantou um princípio, o qual nomeamos Amor à Liberdade; este se impacienta frente à Opressão, e suspira pela Libertação.”

Não negaria a verdade disto mais que negaria que o sol brilha. Todo o bem que existe nas instituições e políticas de meu país se apoia nisto.

Ainda assim vejo que, apesar de nosso amor pela liberdade, somos mui pacientes com a opressão, e até chegamos a recusar a libertação.

Vejo um perigo na insistência em afirmar que nosso amor à liberdade sempre se sobrepõe a qualquer oposição ou inércia que nos impeça de resistir à opressão e buscar a libertação.

Se negar que pessoas fortes, inteligentes e capazes podem aceitar e de fato aceitam a opressão, identifico aos oprimidos como fracos, estúpidos e ineptos.

Se fosse verdade que pessoas superiores recusam-se a serem tratadas como inferiores, disso se seguiria que aqueles que estão abaixo na ordem social realmente são inferiores, uma vez que protestariam caso fossem superiores; uma vez que que aceitam uma posição inferior, são inferiores. Este é o argumento confortavelmente tautológico do senhor de escravos, do reacionário social, do racista e do misógino.

É um argumento que ainda acossa a discussão sobre o Holocausto de Hitler: Porque os judeus “simplesmente aceitaram embarcar nos trens”? Porque não “reagiram”? Uma questão que – assim formulada – é impossível de responder, e que pode então ser usada pelo antissemita para insinuar a inferioridade dos Judeus.

Mas este argumento também tem apelo para o idealista. Muitos americanos liberais e conservadores humanistas acalentam a convicção de que todas as pessoas oprimidas sofrem intoleravelmente com sua opressão, e precisam portanto estar prontos e ansiosos a se rebelarem, e caso não o façam, são moralmente fracos, moralmente errados.

Julgo categoricamente como errada qualquer pessoa que se considere socialmente superior a outra, ou que force outros a aceitarem uma posição de inferioridade. Mas é uma questão bem diferente julgar categoricamente pessoas que aceitam um status inferior. Se digo que elas estão erradas, que a moral exige que elas se rebelem, convém que eu reflita sobre que opções elas têm de fato,  se agem a partir da ignorância ou de uma convicção, e se sequer têm alguma oportunidade para saírem da ignorância ou mudarem suas convicções. Após refletir sobre isso, como posso dizer que a culpa é delas? Serão elas, e não os opressores, que erram?

As classes dominantes são sempre pequenas, os estratos baixos grandes, mesmo em uma sociedade de castas. Há sempre muito mais pobres que ricos. Os poderosos são poucos frente àqueles sobre quem exercem seu poder. Homens adultos controlam as posições de mais status em quase todas as sociedades, mesmo que sejam uma minoria frente a mulheres e crianças. Governos e religiões sancionam e apoiam desigualdades, hierarquias sociais, hierarquias de gênero, e privilégios, em todo ou em parte.

A maioria das pessoas, na maioria dos lugares, na maioria das épocas, estão em posição de inferioridade.

E a maioria das pessoas, mesmo agora, mesmo no “mundo livre”, mesmo “no lar dos livres” [home of the free], considera esta situação, ou elementos dela, como natural, necessária e imutável. Consideram ser essa a maneira como as coisas sempre foram, e portanto como devem ser. Isto pode ser oriundo da convicção ou da ignorância; frequentemente vêm das duas. Por séculos e séculos não havia condições para a maioria das pessoas de baixo status saber que havia existido ou poderia existir outra maneira de organizar a sociedade. Só aqueles em posições superiores poderiam conhecer o suficiente para sabê-lo; e eram seus privilégios e poder que estariam em risco se a ordem das coisas mudasse.

Não podemos confiar na história como baliza moral nessas questões, porque a história é escrita pelas classes superiores, pelos educados, pelos empoderados. Mas só temos a história como ponto de partida, além da observação dos acontecimentos presentes. A partir desses indícios, a revolta e rebelião são raras, as revoluções extremamente raras. Na maioria das vezes, na maioria dos lugares, a maioria das mulheres, servos, intocáveis, párias, camponeses, trabalhadores, a maioria daqueles definidos como inferiores – ou seja, a maioria das pessoas em geral – não se rebelou contra o desprezo e exploração aos quais foram sujeitos. Sim, elas resistem; mas é provável que sua resistência seja passiva, ou tão ardilosa, tão embrenhada no dia-a-dia, que se torna praticamente invisível.

Quando são registradas as vozes dos oprimidos e das classes baixas, algumas gritam por justiça, mas a maioria expressa seu patriotismo, dá vivas ao rei, faz votos de defender a pátria, todos lealmente apoiando o sistema que os priva de direitos e as pessoas que lucram com ele.

A escravidão não teria existido pelo mundo todo se os escravos sempre se levantassem contra os senhores. A maioria dos senhores de escravos não vem a ser assassinada, mas obedecida.

Trabalhadores assistem enquanto os executivos de suas empresas recebem trezentas vezes mais que eles, e resmungam, mas nada fazem.

As mulheres na maioria das sociedades apoiam as afirmações e instituições da supremacia masculina, se submetem aos homens, os obedecendo (publicamente) e defendendo a superioridade inata dos homens, seja como fato da natureza ou dogma religioso.

Homens de baixo status – jovens, pobres – lutam e morrem em nome do sistema que os rebaixa. A maioria dos incontáveis soldados assassinados nas incontáveis guerras travadas para manter o poder dos líderes ou da religião de uma sociedade foram homens considerados inferiores por aquelas sociedades.

“Não há nada que possamos perder senão nossos grilhões”, mas preferimos acariciá-los.

Porque?

Seriam as sociedades humanas inevitavelmente construídas como pirâmides, com o poder se concentrando no topo? Seria a constituição de hierarquias de poder um imperativo biológico que a sociedade humana é forçada a exercer? Essa questão está quase certamente mal-formulada, e portanto impossível de responder, mas continua a ser perguntada e respondida, e aqueles que a perguntam normalmente a respondem com um “sim”.

Se um imperativo biológico tão inato existe, seria ele igualmente imperativo nos dois sexos? Não temos provas indiscutíveis de diferenças inatas de gênero no comportamento social. Essencialistas em ambos os lados da discussão afirmam que os homens têm uma inclinação inata a fundar hierarquias de poder, enquanto as mulheres, apesar de não fundarem essas estruturas, as aceitam ou imitam. De acordo com os essencialistas, o sucesso dessa programação masculina é por isso quase certo, e deveríamos esperar sempre encontrar cadeias de comando, o “superior” comandando o “inferior”, com o poder concentrado em poucos, como um padrão quase universal das sociedades humanas.

A Antropologia fornece algumas exceções a essa suposta universalidade. Etnólogos descreveram sociedades que não possuem cadeias de comando fixas; nelas o poder, ao invés de existir preso dentro de um sistema rígido de desigualdades, é fluido, compartilhado de forma diferente em diferentes situações, operando em sistemas de freios e contrapesos tendendo sempre ao consenso. Eles descreveram sociedades que não classificam um gênero como superior, apesar de sempre haver alguma divisão sexual do trabalho, e das atividades masculinas serem celebradas com mais freqüência.

Mas todas essas sociedades são descritas por nós como “primitivas” – tautologicamente, já que temos uma hierarquia de valores pré-estabelecida: primitivo = inferior = fraco, civilizado = superior = forte.

Muitas sociedades “primitivas” e todas as “civilizadas” são rigidamente estratificadas, com muito do poder delegado a poucos e quase nenhum, ou nenhum, à maioria. Seria a perpetuação de instituições de desigualdade social de fato o motor das civilizações, como sugeriu Lévi-Strauss?

Aqueles no poder são melhor alimentados, armados, e educados, e portanto mais hábeis em manterem-se assim, mas seria isso suficiente para explicar a ubiquidade e permanência de desigualdades sociais extremas? Certamente o fato dos homens serem um pouco maiores e mais musculosos (apesar de menos duráveis) que as mulheres não é suficiente para explicar a ubiquidade da desigualdade de gênero e sua perpetuação nas sociedades onde o tamanho e volume muscular não fazem muita diferença.

Se os seres humanos odiassem a injustiça e a desigualdade tanto quanto pensamos e dizemos que odiamos, teria qualquer um dos Grandes Impérios e Civilizações Superiores durado sequer quinze minutos?

Se nós Americanos odiamos a injustiça e desigualdade tão fervorosamente quanto dizemos, faltaria a alguém neste país o suficiente para comer?

Exigimos um espírito rebelde daqueles que não têm  a oportunidade de aprender que a rebelião é possível, mas nós, os privilegiados, nos mantemos imóveis e cegos ao mal.

Temos boas razões para nossa cautela, nosso silêncio, para não balançarmos o barco. Muito de nossa paz e conforto estão em jogo. A mudança moral e mental da negação da injustiça para a consciência dela cobra frequentemente um preço muito alto. Minha satisfação, estabilidade, segurança, relações pessoais, todos podem terminar sacrificados para o sonho do bem comum, para a idéia de uma liberdade que eu talvez não viva para compartilhar, por um ideal de justiça que talvez nunca seja alcançado.

As últimas palavras do Mahabharata são: “Por meio nenhum posso conquistar um objetivo além do meu alcance.” É provável que a justiça, uma idéia humana, seja um objetivo além do alcance humano. Somos ótimos em inventar coisas que não têm como existir.

Talvez a liberdade não possa ser alcançada por meio das instituições humanas, mas deva permanecer como uma qualidade mental ou espiritual independente das circunstâncias, um dom da graça. Esta (se entendi bem) é a definição religiosa da liberdade. Meu problema com ela é que sua desvalorização do trabalho e circunstâncias encoraja injustiças institucionais que tornam o dom da graça inacessível. A uma criança de dois anos que morra de inanição, de um espancamento, ou de um ataque a bomba não foi concedido o acesso à liberdade, nem qualquer dom da graça, de qualquer forma que eu seja capaz de entender estas palavras.

A partir de nossos próprios esforços podemos alcançar tão somente uma justiça imperfeita, uma liberdade limitada. Melhor que nenhuma. Que nos mantenhamos firmes a aquele princípio, o amor à Liberdade, do qual a escrava liberta, a poetisa, falou.

 

Um campo de esperanças

A mudança da negação da injustiça para o reconhecimento da injustiça não pode ser desfeita.

O que seus olhos viram, viram. Uma vez percebida a injustiça, é impossível negar a opressão e defender o opressor agindo de boa-fé. O que antes era lealdade se tornou traição. Dali em diante, abdicar da resistência significa colusão.

Mas há um campo intermediário entre a defesa e o ataque, um campo de resistência flexível, um espaço aberto para a mudança. Não é um lugar fácil de encontrar ou onde viver. Pacificadores cujo objetivo era este lugar terminaram desesperados e batendo em retirada à Munique.1

Mas mesmo que alcancem esse ponto intermediário, eles provavelmente não receberão louro algum por isso. O Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe é um escravo que, pelo bravo esforço de tentar convencer seu senhor a mudar de postura, e por sua recusa intransigente a espancar os outros escravos, é espancado até a morte. Insistimos em usá-lo como um símbolo para a capitulação e servilismo vergonhosos.

Admirando a rebeldia heróica e fútil, zombamos da resistência pacífica.

Mas este campo de negociação, onde a paciência é o motor da mudança, é onde Gandhi estava. [Abraham] Lincoln chegou lá, dolorosamente. O Bispo [Desmond] Tutu, tendo vivido ali por anos em singular honra, assistiu seu país caminhar, mesmo que de forma incerta e desajeitada, em direção a este campo de esperança.

 

As ferramentas do senhor de escravos

Audre Lorde disse que não se pode derrubar a casa-grande usando as ferramentas do senhor de escravos. Penso nesta poderosa metáfora, tentando entendê-la.

Do ponto de vista dos radicais, liberais, conservadores e reacionários, a educação nos saberes dos senhores é vista como um caminho inexorável para a consciência da opressão e da exploração, e dali para o subversivo desejo pela igualdade e justiça. Liberais apoiam e reacionários se opõem à educação universal e gratuita, às escolas públicas e às discussões sem censura prévia exatamente pelas mesmas razões.

A metáfora de Lorde parece sugerir que a educação é irrelevante para a mudança social. Se nada que o senhor de escravos usa pode ser útil para o escravo, então a educação nos saberes do senhor deve ser abandonada. Portanto uma classe oprimida deve reinventar completamente a sociedade, alcançar um novo conhecimento, caso queira chegar à justiça. Caso contrário, a revolução fracassará.

Isso é algo plausível. As revoluções normalmente fracassam. Mas eu percebo o fracasso se enraizando quando a tentativa de reconstruir a casa para que todos vivam nela se torna uma tentativa de agarrar todas as serras e martelos, se entrincheirar na oficina do sinhô, e manter todos os outros longe dali. O poder não só corrompe, ele vicia. O trabalho se torna destruição. Nada é construído.

As sociedades mudam tanto com a violência quanto sem ela. A reinvenção é possível. A construção é possível. Que ferramentas teremos nós para construir senão os martelos, pregos, serras – a educação, o aprendizado do pensar, as ferramentas de aprendizado?

Haveria ferramentas que ainda não foram inventadas, que precisamos inventar para que possamos construir o lar que queremos para nossos filhos? Podemos partir do que sabemos agora, ou o que sabemos agora nos impede de aprender o que precisamos saber? Para aprender o que as pessoas não-brancas, as mulheres, os pobres têm a ensinar, precisamos desaprender todos os saberes dos brancos, homens, poderosos? Junto com o sacerdócio e a falocracia, precisamos jogar fora também a ciência e a democracia? Ficaremos então tentando construir com nossas mãos vazias e nada mais? A metáfora é rica e perigosa. Não sei responder as perguntas que ela traz.

 

Somente nas Utopias

No sentido em que oferecem um pequeno olhar para alguma alternativa ao “modo como vivemos hoje”, muito da minha ficção pode ser chamada de utópica, mas continuo com resistências à esta palavra. Muitas das sociedades que inventei me parecem melhores em alguns aspectos que a nossa, mas vejo “utopia” como um nome muito pomposo e rígido para elas.

A Utopia, e também a Distopia, são locais do intelecto. Escrevo a partir de minha paixão por escrever e pela diversão. Minhas histórias não são nem alertas graves nem projetos para o que devemos fazer. A maioria delas, penso eu, são comédias de costumes humanos, que nos relembram da variedade infinita de maneiras pelas quais terminamos por voltar ao mesmo lugar, e celebrações dessa variedade infinita pela criação de ainda mais alternativas e possibilidades. Mesmo as novelas Os Despossuídos e O retorno infinito/Sempre à caminho de casa , nas quais trabalhei de maneira mais metódica que de costume algumas variações nos usos do poder, que preferi a aquelas que o obtêm em nosso mundo – mesmo essas são tanto esforços para subverter quanto para apresentar o ideal de um projeto social alcançável, que daria fim de uma vez por todas à injustiça e à desigualdade.

Para mim o importante não é oferecer qualquer esperança específica por melhoras, mas que, ao oferecer uma realidade alternativa convincente, apesar de imaginária, tire a minha mente, e assim a do leitor também, do hábito preguiçoso e acomodado de pensar que a maneira como vivemos hoje é a única maneira na qual se pode viver. É essa inércia que permite que as instituições de injustiça se mantenham sem ser questionadas.

As ficções científica e de fantasia desde sua concepção oferecem alternativas ao mundo presente e real do leitor. Jovens em geral abraçam essas histórias porque, em seu ânimo e ânsia por experiências, eles acolhem as alternativas, as possibilidades, a mudança. Havendo aprendido a temer até mesmo que se imaginem mudanças reais, muitos adultos renegam toda literatura imaginativa, se orgulhando de não ver nada além do que já sabem, ou pensam que sabem.

Ainda assim, como se temessem seus inquietantes poderes, muitas das ficções científica e de fantasia são tímidas e reacionárias em suas invenções sociais, a fantasia se agarrando ao feudalismo, a ficção científica às hierarquias militares e imperiais. Ambas em geral recompensam seus campeões, sejam heróis ou heroínas, apenas por feitos incrivelmente másculos (Eu mesma escrevi assim por anos. Em Mão Esquerda da Escuridão, meu herói não tem gênero, mas seus atos de heroísmo são quase exclusivamente masculinos.) Na ficção científica em particular é comum encontrar a idéia que discuti acima, de que quaisquer pessoas de status inferior, se não forem rebeldes constantemente prontos a agarrarem a liberdade por meio de feitos audazes e violentos, são ou desprezíveis, ou sem qualquer importância.

Em mundos de moral tão simplificada, quando um escravo não é Espártaco, ele não é ninguém. Isso é ao mesmo tempo impiedoso e irreal. A maioria dos escravos, a maioria das pessoas oprimidas, são parte de uma ordem social onde, pelos próprios termos de sua opressão, elas não têm a oportunidade de sequer perceber que a ordem pode ser transformada.

O exercício da imaginação é perigoso para aqueles que se beneficiam de como as coisas são porque ela tem o poder de mostrar que “a maneira como as coisas são” não é permanente, nem universal, nem necessária.

A literatura imaginativa, possuindo esse poder verdadeiro, apesar de limitado, de colocar em questão as instituições estabelecidas, tem também a responsabilidade que vem com o poder. O contador de histórias é o contador de verdades.

É triste que tantas histórias que poderiam oferecer visões reais se contentam com platitudes patrióticas e religiosas, com a operação de milagres tecnológicos, ou com exposições de idéias do gênero “que bom seria se… ”3 , com seus escritores deixando de tentar imaginar a verdade. A distopia noir mui elegante só inverte as platitudes e usa o ácido ao invés do açucarado, enquanto ainda se esquiva de lidar com o sofrimento humano e com as possibilidades genuínas.

A ficção imaginativa que admiro apresenta alternativas ao status quo que não somente questionam a ubiquidade e necessidade das instituições existentes hoje, mas alargam o campo das possibilidades sociais e compreensões morais. Isto pode ser feito em um tom ingenuamente esperançoso, como as primeiras três temporadas de Jornada nas Estrelas, ou por meio de construções de pensamento e técnica tão complexas e sofisticadas quanto os romances de Phillip K. Dick e Carol Emshwiller; mas o movimento é visivelmente o mesmo – o impulso de tornar a mudança imaginável.

Não saberemos de nossas injustiças se não pudermos imaginar a justiça. Não seremos livres se não imaginarmos a liberdade. Não podemos exigir que tente alcançar a justiça e liberdade aquele que não teve qualquer chance de as imaginar como alcançáveis.

Quero fechar e coroar estas meditações inconclusivas com as palavras de um escritor que nunca disse nada além da verdade, e que sempre a disse em tom gentil, Primo Levi, que viveu um ano em Auschwitz, e soube o que é a injustiça.

A ascensão dos privilegiados, não somente no Lager4 mas em toda a coexistência humana, é um fenômeno angustiante mas infalível: só nas utopias ele não existe. É o dever dos homens justos declarar guerra a todo privilégio desmerecido, mas não deve-se esquecer que esta é uma guerra sem fim.


Notas:

1.  A frase original é “Peacemakers trying to get there have ended up scuttling in panic to Munich”. “Scuttling” é o ato de afundar os próprios navios para que eles não sejam capturados, ou de fugir com rapidez. Preferi traduzir como “Bater em retirada”. “Bater em retirada a Munique” parece se referir ao Acordo de Munique de 1938, onde os primeiros-ministros inglês e francês na prática cederam a Tchecoeslováquia à Hitler, imaginando que isso seria suficiente para conter a sanha expansionista da Alemanha nazista. No pós-guerra o termo remete, segundo a Wikipédia, à idéia de, ao negociar com um ente agressor/agressivo, decidir apaziguar as tensões cedendo aos termos impostos por ele. No contexto pode ter dois sentidos – de aceitar o apaziguamento e os termos do agressor/opressor, ou de ceder às pressões de que negociar “levará a uma nova Munique”, e tomar uma postura intransigente/violenta. Não tenho certeza de qual dos sentidos ela tinha a intenção de usar, ou se não é qualquer um deles.
2.  Não encontrei uma tradução para o título deste livro, por isso as traduções alternativas; o original é “Always Coming Home”.
3.  “exposições de idéias do gênero ‘que bom seria se…'” é a muleta que encontrei para traduzir a expressão “Wishful Thinking”, da qual não conheço uma tradução satisfatória.
4. Lager” em alemão significa literalmente “Armazém”; mas neste caso é a contração de “Konzentrationslager“, “Campo de Concentração”.
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